sábado, 13 de maio de 2017

UMA CARTA PARA MINHA MÃE por Mirian Marclay

Ciro Morrone (1956, Italian)
UMA CARTA PARA MINHA MÃE

Como ser festa se tanto do que me move é saudade? Como prestigiar a bondade que inspira tantas manifestações quando meu coração está preso ao passado? Como sentir completude quando o que sou é parte de ti e parte de ti é minha filha?
Estou deitada em teu colo enquanto escrevo esta carta. Desculpa se choro, eu não controlo tanto assim meus sentimentos. Eles são incontidos gritos do meu silêncio.
Mãe, querida mãe, onde estarei daqui a trinta anos? Serei eu a senhorinha que nunca fostes, verei os netos que nunca vistes, amarei como fui amada?
Incondicional foi o teu amor, em cada momento da estrada enquanto caminhamos juntas.
Como é o amor de cada mãe por seu filho, das pessoas que passeiam juntas pelo cosmos nos instantes permitidos e que se amparam, cada mãe e cada filho, quando tudo o que restar for a lembrança.
Há uma criança que dentro de mim faz morada como se nada mais importasse quando o quesito é dizer da sua falta. E uma mulher a sustentando, aliviando as chagas, curando as mágoas, os questionamentos íntimos com Deus.
Ninguém aceita plenamente a falta. O tempo que a sabedoria exalta apenas ensina a minimizar a ausência através da elevação do pensamento.
E meu pensamento é um altar de recordações.
Hoje percebo o quanto perfeita é uma mãe, mesmo com suas inerentes inseguranças, com seus medos mais profundos  de não se reconhecer a grande heroína de sua prole.
A unicidade de cada mãe com o todo, o papel majestoso de sua graça em trazer a este plano alguém a quem se ensinará a amar.
Acho que mãe é a maior de todas as professoras. E tendo em si, tanto amor, além do espaço tempo, elas, somente elas, sabem consolar nossos espíritos.
Há em mim uma unção como a música aprendida antes mesmo da primeira oração. Um pacto elaborado entre luzes e perfumes que recordo da infância.
Um cafuné tão presente quanto o colo que dou para minha filha.
Mãe, a vida me tem sido boa. Há pessoas iluminadas, generosas, afetuosas que me amparam, que rejubilam a tua memória, que me trazem histórias tuas, que me reconectam com o que é essencial da sua personalidade, da sua obra, do seu existir.
Que constroem a história delas comigo ao lado da tua história. Que trazem a tua mão consoladora, a sua palavra afetuosa, que recolhem a lágrima teimosa...
Das lições que trago grafadas pela ternura permito-me a alegria nos meus dias, como se ao fim da tarde aquele bolo gelado, único, fosse a recompensa de um comportamento exemplar (ou quase).
E se a base do que sou foi um sopro de vida, inspiro este ar que ainda me permeia, e teço a ceia que mais tarde fortalecerá meu ser para o restante desse passeio neste plano.
Sem panos ou enganos nós nascemos, permeados pela consciência de que algo maior nos dá os princípios, o arbítrio e a regência do que somos.
E assim, enquanto converso contigo as tramas de estrelas se fazem meu abrigo e ultrapasso  o lugar onde estou, transformo aquilo que sou e cresço.
A criança de antes funde-se à mulher acolhedora, transporta-me às portas do céu onde teus braços são o conforto e absorto do amor que me escolheu adormeço.
E não mais me entristeço, nem permito incertezas ou conjecturas acerca dos porquês.
Hoje observarei, mais uma vez, as manifestações únicas da maternidade, nos beijos que receberei da tua mãe e da tua neta. Eles são teus, assim como sou tua, tua parte, tua arte, tua obra, tua semente, teu encontro com Deus, tua paciência e a ciência do próprio amor maior.
Enaltecerei tua taça.
Exortarei tua graça.
Direi que teu presente
Sou eu.
E serei o amor
Materno, tão em mim
Eterno
Que Deus me deu.


Mirian Marclay

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